Quando meu pet começa a envelhecer?

Até o momento, não existe uma idade ou um único parâmetro que determine, sozinho, quando um pet começa a envelhecer. Essa avaliação é multifatorial e considera idade, porte, comportamento, condição corporal, histórico de saúde e alterações identificadas no exame clínico e nos exames laboratoriais.

Um cão de porte gigante com 7 anos pode estar em uma fase de vida muito diferente de um cão pequeno da mesma idade. Com os gatos, essa diferença entre tamanhos é menor, mas também encontramos animais de 10 ou 12 anos muito ativos e outros que começam a apresentar alterações clínicas antes disso.

As diretrizes da American Animal Hospital Association (AAHA) consideram que não existe uma idade única capaz de definir todos os animais como idosos. Nos cães, a fase sênior pode ser entendida como aproximadamente o último quarto da expectativa de vida daquele indivíduo. Para os gatos, as diretrizes atuais consideram sênior o paciente com mais de 10 anos.

Na prática, mais importante do que olhar apenas a idade é entender como aquele animal está envelhecendo.

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Com quantos anos um cachorro é considerado idoso?

Nos cães, o porte tem bastante influência sobre a velocidade de envelhecimento.

De forma prática, cães grandes e gigantes costumam entrar na fase sênior antes dos cães pequenos. Não significa que todo animal daquela idade já tenha uma doença ou esteja debilitado. É apenas um momento em que devemos começar a olhar com mais atenção para mudanças que antes poderiam passar despercebidas.

Como referência clínica aproximada:

  • cães de porte pequeno podem começar a ser considerados seniores por volta dos 8 a 10 anos;
  • cães de porte médio, por volta dos 7 a 9 anos;
  • cães grandes, aproximadamente aos 6 a 8 anos;
  • cães gigantes podem apresentar características de envelhecimento ainda mais cedo.

Essas idades não devem ser usadas como uma regra rígida. Raça, genética, peso, condição corporal, alimentação, doenças prévias e estilo de vida interferem bastante.

Um cão de 9 anos com peso adequado, boa musculatura, dentes bem cuidados e exames normais pode apresentar uma condição muito diferente de outro cão da mesma idade com obesidade, doença articular e problemas cardíacos.

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É justamente por isso que, na consulta, eu não avalio apenas “quantos anos ele tem”. Avalio como esse animal está envelhecendo.

E quando o gato começa a envelhecer?

Nos gatos, considero especialmente importante começar a aumentar a atenção a partir da maturidade, mesmo quando o animal ainda parece completamente saudável.

Segundo as diretrizes AAHA/AAFP, gatos acima de 10 anos entram na classificação de pacientes seniores.

Mas isso não significa que devemos esperar os 10 anos para começar a prevenção.

Gatos são muito bons em esconder desconforto e alterações de saúde. Muitas vezes, o responsável percebe apenas que o animal está “mais tranquilo”, “dormindo mais” ou “subindo menos no sofá”.

E justamente aí existe um problema: algumas mudanças atribuídas à idade podem ser sinais de doença.

Na rotina clínica, por exemplo, é comum o responsável dizer que o gato deixou de subir em lugares altos porque “está ficando velho”. Em alguns casos, encontramos dor ou doença articular. Estudos citados pelas diretrizes da AAHA mostram uma alta frequência de osteoartrite em gatos, inclusive sem sinais óbvios no exame físico.

Ou seja: ficar mais velho não significa necessariamente ter que aceitar perda de mobilidade, dor ou mudança de comportamento como algo normal.

Envelhecimento não é doença

Essa é uma das mensagens mais importantes que tento passar aos responsáveis dos meus pacientes. Um pet idoso pode ter uma ótima qualidade de vida. Envelhecer aumenta a possibilidade de algumas doenças aparecerem, mas idade por si só não é um diagnóstico.

O que muda é a nossa estratégia.

Quando o animal é jovem, muitas consultas são voltadas para vacinação, prevenção de parasitas, alimentação e alterações pontuais. Conforme ele envelhece, começo a prestar ainda mais atenção em detalhes como:

  • perda ou ganho de peso;
  • redução de massa muscular;
  • dificuldade para levantar;
  • resistência para subir escadas;
  • menor disposição para passeios;
  • mudanças no sono;
  • aumento da sede;
  • aumento ou redução da quantidade de urina;
  • mudança no apetite;
  • vômitos mais frequentes;
  • alterações nas fezes;
  • mau hálito e dificuldade para mastigar;
  • surgimento de nódulos;
  • mudanças de comportamento;
  • desorientação;
  • redução da visão ou audição.

Nenhum desses sinais deve ser automaticamente explicado pela frase “é porque ele está velho”.

Alguns realmente podem acompanhar o envelhecimento. Outros podem indicar doenças que possuem tratamento ou formas de controle.

Meu pet está ficando mais quieto: isso é normal da idade?

Às vezes sim. Mas essa conclusão só deve ser feita depois de excluir outras causas.

Esse é um ponto que vejo com muita frequência no atendimento domiciliar. O responsável conta que o cachorro não quer mais passear tanto, demora para levantar ou não sobe mais no sofá. Como a mudança foi gradual, a família acaba se acostumando. Quando examinamos o animal, podemos encontrar dor articular, perda de massa muscular ou alterações na coluna. O mesmo acontece com gatos que deixam de acessar prateleiras, passam a usar apenas móveis baixos ou começam a hesitar antes de saltar. A mudança pode parecer pequena, mas para mim ela é uma informação clínica importante.

Por isso gosto de perguntar não apenas se o pet “está bem”, mas se ele ainda faz as mesmas coisas de seis meses ou um ano atrás. Essa comparação costuma revelar muito mais.

O que muda nos cuidados quando o pet entra na fase sênior?

Quando o pet começa a envelhecer, o objetivo não deve ser procurar doença o tempo todo. O objetivo é identificar alterações precocemente e preservar qualidade de vida.

As necessidades variam conforme cada paciente, mas alguns pontos passam a ganhar mais importância.

Acompanhamento do peso e da massa muscular

Não observo apenas o número da balança. Um animal pode manter praticamente o mesmo peso e, ainda assim, perder musculatura e ganhar gordura.

Principalmente nos pacientes idosos, avalio condição corporal e massa muscular porque essas mudanças podem ser um indicativo de doenças metabólicas e até mesmoi interferir na mobilidade e na recuperação de doenças.

Alimentação

A alimentação deve ser reavaliada na fase senior e acompanhar as necessidades do paciente. Alguns precisam controlar calorias. Outros precisam preservar massa muscular. Existem ainda animais com doença renal, gastrointestinal, cardíaca, obesidade ou outras condições que exigem estratégias nutricionais específicas.

Em cães e gatos idosos saudáveis, também avalio o teor de fósforo da alimentação. Algumas rações formuladas para a fase sênior apresentam menor quantidade desse mineral em relação às dietas de manutenção para adultos, o que pode ser interessante nessa fase da vida. Porém, “ração sênior” não significa automaticamente “ração para proteção renal”, e a troca deve considerar a composição do alimento e a saúde daquele paciente.

Mobilidade e dor

Dificuldade para levantar, andar em piso liso, subir escadas ou entrar no carro merece investigação. Quando existe dor crônica, podemos trabalhar com tratamento medicamentoso quando indicado, controle de peso, adaptações ambientais e outras estratégias. Nos pacientes com doenças progressivas ou terminais, o controle da dor e o tratamento paliativo também podem fazer uma diferença enorme na rotina e no conforto.

Saúde oral

Doença periodontal não é uma consequência que devemos simplesmente aceitar porque o pet envelheceu. Por isso, dentes, gengivas e cavidade oral continuam fazendo parte da avaliação do paciente idoso. E se necessário, indicar o tratamento adequado ou prevenção.

Exames preventivos passam a ter ainda mais importância

Um animal pode aparentar estar saudável e já apresentar alterações nos exames. Por isso, conforme o pet entra na fase sênior, costumo conversar com o responsável sobre um acompanhamento mais próximo.

As diretrizes da AAHA recomendam avaliação clínica e investigação laboratorial periódica nos pacientes seniores. Hemograma, perfil bioquímico e exame de urina podem ser considerados a cada 6 a 12 meses, dependendo do paciente e de seus fatores de risco. Na prática, selecionamos os exames de acordo com idade, espécie, raça, histórico, medicamentos utilizados, alterações encontradas no exame físico e doenças anteriores.

Em alguns pacientes, também podemos indicar aferição de pressão arterial, avaliação de tireoide, exames cardíacos, ultrassonografia ou outros exames específicos. O acompanhamento preventivo permite comparar resultados ao longo do tempo. Muitas vezes uma pequena mudança entre dois exames é mais informativa do que analisar apenas um resultado isolado.

Não espere o pet “parecer velho” para começar a cuidar da velhice

A prevenção do envelhecimento saudável começa antes da velhice. Manter peso adequado, preservar musculatura, cuidar dos dentes, manter vacinação e prevenção de parasitas atualizadas, oferecer atividade física compatível com o paciente e investigar alterações precocemente são atitudes que construímos ao longo da vida. Depois de anos acompanhando cães e gatos dentro de casa, percebo também como o ambiente mostra coisas que nem sempre aparecem em uma consulta rápida. O piso onde o cachorro escorrega, a escada que ele passou a evitar, a altura do sofá, o local da caixa de areia do gato ou a posição dos potes podem interferir bastante na rotina de um animal mais velho.

Às vezes, pequenas adaptações proporcionam um conforto enorme.

A Consulta Veterinária em Domicílio

O atendimento domiciliar pode ser especialmente útil quando o cão ou gato começa a envelhecer. Além de realizar o exame clínico, consigo observar como aquele animal se movimenta no próprio ambiente: como levanta da cama, caminha pelo piso, sobe no sofá, acessa água e alimento ou utiliza a caixa de areia. Isso ajuda a identificar dificuldades que nem sempre aparecem durante uma consulta fora de casa.

No Atende Pet, realizo atendimento de cães e gatos em São Paulo e ABC há cerca de nove anos. Sou médica-veterinária formada em 2013 e pós-graduada em Clínica Cirúrgica de Pequenos Animais. Ao longo desse período, acompanhei desde pacientes adultos iniciando os primeiros cuidados da fase sênior até animais com doenças crônicas, dor e necessidade de cuidados paliativos.

Durante a consulta, avalio o paciente como um todo e converso com o responsável sobre alimentação, peso, mobilidade, vacinação, comportamento, exames preventivos e qualquer mudança percebida na rotina. O objetivo não é esperar o animal adoecer para começar a falar sobre envelhecimento.

O cuidado de hoje ajuda a construir a saúde do amanhã.

Fontes

American Animal Hospital Association (AAHA). 2023 AAHA Senior Care Guidelines for Dogs and Cats.

American Animal Hospital Association (AAHA). Defining the Senior Patient.

American Animal Hospital Association (AAHA). Evaluating the Healthy Senior Pet.

American Animal Hospital Association (AAHA). Diagnostic Tests and Recommended Frequencies for Senior Dogs and Cats.

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